segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Mensagem de Fim de Ano - De Sementes e Jardinagem



A jardinagem pode ser considerada a arte de criar espaços naturais e de fazer a manutenção de plantas com o objetivo de embelezar determinados locais públicos ou privados. Para quem gosta, acompanhar o processo da planta desde a plantação da semente até a chegada das flores ou a colheita dos frutos, é um grande prazer.
Se observarmos de perto esta arte, poderemos abstrair algumas metáforas da vida humana. Vejamos:
A escolha das sementes para o plantio deve ser criteriosa. Elas devem possuir uma boa genética e ser livres de pragas e doenças. Sementes fracas e doentes são certeza de insucesso. Infelizmente nem sempre escolhemos boas sementes para o plantio das nossas relações. Encontramos “sementes doentes” mas negamos, fechamos nossos olhos – pois nossa carência está gritando mais alto do que o nosso amor próprio - e plantamos assim mesmo. Com a ilusão de que se cuidarmos muito bem, a planta vai mudar sua natureza e crescer sem doença. Só veremos o resultado lá na frente, com plantações que não rendem todo o potencial que poderiam render se nossas sementes escolhidas fossem saudáveis.
Escolher o local e as condições da plantação é também uma etapa importante. Pode ser necessário preparar a terra para receber as sementes. Cada planta tem sua própria necessidade. Precisamos conhecê-la para saber qual ambiente e qual estação do ano são melhores para seu plantio. Se as condições do plantio não condizem com a estrutura da planta, a morte é certa. É no mínimo tolice querer exigir da planta que ela se adapte a ambientes inadequados para sua estrutura. A planta não vai responder ao seu desejo e sim o contrário.
Partindo dessa idéia, uma das características do plantio das sementes é que as mesmas não podem ser aterradas muito próximas umas das outras, pois isso pode prejudicar o crescimento da planta. Plantas e humanos precisam de espaço para se desenvolver. Alguns pais “plantam” seus filhos tão próximos de si mesmos, de forma que suas raízes acabam ficando muito emaranhadas, os filhos não crescem o suficiente e acabam ficando sobre suas sombras... Isso também acontece com casais que ainda acreditam que duas plantas devem tornar-se uma só.
A profundidade da plantação também deve ser regulada de acordo com recomendação ideal para cada semente. Algumas precisam de sol para germinar, então devem ser colocadas sobre a terra sem serem cobertas. Outras, se plantadas muito fundas podem não conseguir subir a superfície e morrer. Há ainda as que se plantadas muito rasas podem gerar plantas fracas que tombam facilmente. Penso que também o início das relações amorosas deveria ser assim: nem plantado profundamente, nem no raso. Na primeira opção, vemos pessoas que pulam de cabeça, em relações extremamente projetivas, onde cada um espera do outro a salvação para suas misérias, o príncipe ou a princesa encantados, e acabam “morrendo”, frustrados ou provavelmente sufocados. Na segunda opção, ficar na superficialidade, também é inadequado para a “semente relacional”, pois não desenvolve raízes saudáveis e fortes o suficiente para manter uma boa base que não tombe com a primeira ventania de mudança de clima.
A rega dos primeiros dias da semeadura deve ser farta e com lâminas bem finas de água, nunca jogando jatos de água. Talvez um borrifador seja a forma mais delicada de rega. Este tipo de cuidado dá mais trabalho, mas compensa pelos bons resultados. A rega das relações também precisa ser farta, delicada e frequente. Algumas pessoas têm uma ilusão comum de que a relação pode crescer sem essa dedicação. Amarga (des)ilusão.
As plantas também precisam do calor do sol para sua germinação e crescimento, não de forma direta senão elas podem se queimar, mas de forma indireta. Ou um local próximo da iluminação solar ou uma estufa devidamente fechada com tela, são os ambientes climatizados ideais. As relações também precisam do calor, e o sol aqui pode ser representado pelo calor do afeto, do amor. Calor demais pode ser paixão, expectativa ou dependência demais e não amor.
Além das relações, os sonhos e os desejos também são como as plantas.
Muitas vezes tentamos plantar um sonho e um desejo num local completamente inadequado para seu crescimento. Existem ambientes que não são suficientemente férteis, ou não querem este tipo de planta que queremos plantar, pois já estão acostumados com um jardim antigo, ou seco.
Outras vezes queremos trazer algumas plantas para nosso jardim ou quintal, mas sua estrutura não condiz com nosso ambiente. Se forçarmos a barra e insistirmos nessa plantação, podem acontecer duas coisas: ou a planta morre ou nosso jardim ficará feio ou seco. Em ambos casos, ficamos frustrados, com raiva, magoados e até mesmo cegos, podendo escolher tolerar – que não significa aceitar - o jardim em tais condições a vida toda. Ou podemos, quem sabe, despertar nossos olhos de sua cegueira, e mudá-lo, escolhendo outras sementes e plantas afins.
Nessa nossa sociedade apressada e ansiosa, nem sempre temos a paciência de acompanhar o processo de crescimento da planta. Queremos ir direto para os frutos. Esquecemos que o tempo é um fator essencial. É impossível colher flores ou frutos maduros dos nossos sonhos e desejos sem passar por todas as etapas. Só poderíamos colher botões de flores, e frutos ainda imaturos, não prontos para consumo ou com sabor de fruta verde.
A beleza e a magia estão em cada etapa do crescimento da planta, desde a germinação, o nascimento das folhas, seu crescimento, a chegada das flores e dos frutos e então o recomeço de um novo ciclo. Que possamos escolher admirar e festejar todos esses momentos com alegria.
Desejo, neste Natal e em 2013, que você possa despertar, aprender ou continuar praticando a arte de jardinagem da sua própria vida, e que o seu jardim continue sendo ou se torne uma fonte de muita beleza e prazer para si e para os seus!
Afetuosamente
Adriana Freitas

sábado, 3 de novembro de 2012

TRINTA E TRÊS – AMOR PELO ESTAR SOZINHA




No mês de outubro comemoro meu aniversário, que este ano de 2012 foi de trinta e três anos. Eu sempre gostei de aniversários, acho que minha mãe teve influência nisso, pois durante a infância ela sempre fazia uma festinha, por mais simples que fosse. O fato é que eu cresci apreciando muito esta data, e hoje perpetuo o ritual da comemoração.
Pensando nisto, decidi fazer uma viagem para Tiradentes - MG no dia do aniversário, buscando fazer um ritual diferente dos anteriores. Passei em São João Del Rey, almocei na casa de um amigo com seus amigos e mais tarde dois deles me levaram para meu destino principal.
Depois que eles foram embora e eu fiquei sozinha, fui passear na cidade e pensar na minha vida. Eu costumo aproveitar o meu dia para refletir sobre o ano que passou e planejar o ano que se inicia.
Visitei uma loja de cristais e colchas maravilhosos. Lá tomei um café expresso com pão de queijo, num ambiente extremamente agradável: um quintal atrás da loja, onde havia algumas mesas e cadeiras debaixo de um toldo e em seguida a grama, árvores, mais outro local para sentar debaixo de algo parecido com um quiosque. E para completar o quadro, havia uma chuvinha e um friozinho deliciosos. Foi muito prazeroso simplesmente estar ali sentada, sem pressa, sem ansiedade, sentindo na pele o clima, ouvindo o barulho da chuva, sentindo o seu cheiro. Parecia que todos os meus sentidos estavam aguçados, inteiramente presentes e vivos.
Após esta experiência, caminhei de volta pra pousada e me preparei para ir jantar. Decidi passear pela rua onde se localizavam os restaurantes e escolher o local ideal para aquela noite, usando novamente meus sentidos. Eu tenho tentado prestar bastante atenção na minha intuição, minha companheira sempre acessível, disponível e sábia, moradora do meu eu mais profundo. E assim o foi. Ao passar por um restaurante com uma musiquinha ambiente eu senti que aquele era o melhor lugar. Ao chegar mais próximo, vi que teria também música ao vivo.
A vida é muito mágica, nós temos uma conexão profunda com o universo e não fazemos a mínima idéia disso. Os músicos sentaram e a primeira música que tocaram foi parabéns pra você! Havia outra aniversariante lá, e durante a noite eles cantaram três vezes a música parabéns. Eu fiquei emocionada ao ouvi-los cantar e pensar em como minha intuição me levou para o lugar certo.
Continuei refletindo sobre as vivências do ano trinta e dois e pensando o que desejava para os trinta e três, meus sonhos e projetos. O saldo passado foi extremamente positivo e projetos valiosos estão em aberto.
Mas o que mais me marcou daquele dia foi o quanto eu gostei da experiência de viver aqueles momentos comigo mesma, sem nenhum conhecido ou amigo por perto. Geralmente as pessoas têm muito medo da solidão e sofrem quando estão sozinhas. Talvez eu simplesmente seja diferente ou talvez eu tenha vivido a solidão de uma forma mais positiva, ou talvez eu tenha aprendido a gostar da minha companhia na medida em que passei a ser mais coerente, buscando sintonizar pensamento, sentimento e ação.
O fato é que eu estava numa presença amorosa comigo mesma durante todo o tempo. A solidão pode ser muito prazerosa tanto quanto o estar acompanhado, desde que o amor esteja na parte de dentro. Infelizmente buscamos o amor do lado de fora o tempo todo. Esperamos que o outro seja uma fonte de amor para nos alimentar. Não pensamos, não sabemos ou não lembramos que a fonte já existe em nós e assim vivemos uma busca ilusória.
Acho que o grande ganho pra mim ao fazer essa viagem de aniversário foi reencontrar e reconectar com a minha fonte amorosa interna e poder viver o prazer e o amor pelo estar sozinha.
Adriana Freitas

sábado, 25 de agosto de 2012

MOMENTOS ETERNIZÁVEIS


Quem nunca desejou eternizar um momento? Quem nunca quis permanecer naquele momento prazeroso por toda a vida? Que o show nunca terminasse, que o dia nunca acabasse, que o abraço e o beijo nunca se desfizessem... Quando vivemos um grande prazer com uma grande entrega fica realmente muito difícil terminá-lo, considerá-lo findo...
Senti esse desejo recentemente três vezes.
Uma, quando estava assistindo um show de jazz no Savassi Festival em Belo Horizonte, no final de julho. O trio - Shai Maestro Trio - era composto por um pianista, um baterista e um contrabaixista, sendo os primeiros de origem israelense e o terceiro de origem peruana, mas vivendo nos Estados Unidos. Além de toda beleza das músicas, a integração dos músicos no palco era de uma sintonia amorosa maravilhosa. O prazer em assisti-los era imenso. Eu não queria que o show acabasse! Ao final, ainda em êxtase, fui comprar o cd deles e em casa, ao ouvi-lo não tinha mais a mesma magia. A magia residiu no contato vivo entre nós. E é exatamente esta sensação que eu desejei eternizar...
O segundo momento eternizável, aconteceu numa casa de rock que gosto de ir assistir aos shows, também num final de semana de julho. Conheci um homem e senti algo diferente por ele. A princípio não havia nada de muito incomum: a conversa era boa, o abraço afetuoso e o beijo muito gostoso, e ele, sendo do estado de São Paulo, partiria de volta no dia seguinte. Mas acredito que o verdadeiro diferencial foi que nosso – ou pelo menos o meu - contato foi de uma entrega muito grande ao momento. E ao final, foi muito difícil a separação. O pessoal da casa praticamente nos convidou para pagar a conta e de quebra ir embora – “pelo amor de deus!” rs. Sintonias como esta são raras pra mim e quando elas acontecem, com certeza dá vontade de eternizá-las. Que a noite nunca acabe, que os corpos permaneçam entrelaçados e que o prazer se prolongue infinitamente!
E o terceiro “momento” durou um dia inteiro; eu não queria que aquele dia terminasse! Foi uma viagem que fiz no início de agosto para Ouro Preto – MG, acompanhada de um querido amigo, que se tornou meu guia turístico, já que foi minha primeira visita a cidade. Passeamos por alguns dos principais pontos turísticos. O dia foi perfeito, tudo deu certo. A cidade é muito bonita, com uma riqueza cultural que me agregou alguns valores e emoções, a gastronomia uma delícia, enfim, vivi uma experiência eternizável.
Mas infelizmente as coisas se findam e só nos resta o sabor da memória. Bom aqui relembrar o Drummond:
Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Mas as coisas findas só ficarão quando tivermos uma memória saudável. A memória “serve a dois senhores” podendo ser tanto uma dádiva como também uma maldição. Para as memórias traumáticas não elaboradas, pode tornar-se um sofrimento sem igual. Para as memórias eternizáveis é fundamental.
Imaginem se não pudéssemos relembrar os bons momentos? O filme “Como se fosse a primeira vez!”, dirigido por Peter Segal, mostra bem claro este drama. A personagem Lucy Whitmore tem um problema de memória e no dia seguinte não se lembra de nada do dia anterior e o outro personagem Henry Roth, que se apaixonou por ela, tem que conquistá-la todos os dias. Relembrem também das pessoas que sofrem de demências ou Alzheimer? Será que elas sentem a angústia da falta de memória ou será que a angústia é nossa, de quem olha de fora? Ou será que inconscientemente essas pessoas desejaram esquecer suas vidas porque elas eram tão miseráveis que não valiam a pena serem lembradas? Ou ainda, se desejavam desesperadamente esquecer traumas muito profundos e dolorosos?
Por outro lado, imaginem se realmente pudéssemos eternizar o momento...  Reviver uma vez, outra e outra a mesma experiência. Não estaríamos paralisando as nossas vidas? Não restringiríamos nossas vidas a apenas um prazer sendo que poderíamos descobrir milhões de outros? Tal prazer não perderia seu caráter prazeroso pela repetição?
O fato é que muito provavelmente só aproveitemos ao máximo os prazeres que temos - quando temos ou nos damos permissão de aproveitá-los - porque eles são extremamente fugazes. E talvez o prazer só seja prazer por ser efêmero, e no momento seguinte nos escapa a mão. Quem sabe se é só assim que aprendemos a dar valor ao momento presente?
Pelo menos nos resta um consolo: já que não podemos ou não gostaríamos de pagar o preço de eternizar os momentos, podemos revisitar as conhecidas experiências prazerosas de vez em quando, seja através da memória, seja pessoalmente numa nova aventura. Mesmo que seja impossível “banhar-se no mesmo rio duas vezes”*, ainda assim vale a pena voltar ao rio em outras estações.
Adriana Freitas

* Referência a famosa frase de Heráclito de Éfeso.


sexta-feira, 20 de julho de 2012

ENVELHECER, ENVELHE-SER


Não entendo isso dos anos: que, todavia, é bom vivê-los, mas não tê-los."

Envelhecer, verbo intransitivo: tornar-se velho, parecer velho. Verbo transitivo: tornar velho. Mas na vivência real, “verbo” imperativo.
Estou com trinta e dois anos e adoro fazer e comemorar aniversário. Nunca foi um problema pra mim contar minha idade pois eu sempre gostei de ficar mais velha. Eu sempre dizia: um ano a mais de vida.
Controversamente a todo esse sentimento, ao me deparar este ano com as primeiras (ou as primeiras que meus olhos quiseram enxergar) linhas de expressão no meu rosto - claro que foi inventado um nome mais bonito que rugas, para amenizar a questão -, imediatamente me chegou o impacto: estou envelhecendo... Confesso que fiquei “baqueada”, incomodada, talvez triste, como nunca imaginei que ficaria já que gosto de envelhecer, ou pelo menos achava que gostava.
Comecei a questionar o por quê deste sentimento e a primeira idéia que me veio a mente foi a expectativa social que existe sobre nós mulheres, uma demanda de que estejamos e sejamos sempre bonitas, inteiras. Não é difícil de pensar estatisticamente quem são as maiores clientes das clínicas de cirurgia plástica e quem são as maiores consumidoras de produtos de beleza e produtos anti-idade, anti-sinais. Mesmo que sejamos pessoas conscientes dessas expectativas e que não sejamos adeptas da escravidão aos estereótipos sociais, sofremos uma forte influência dos mesmos em nossas vidas, muito mais do que podemos perceber.
Não ser adepto ao estereótipo também não significa dever abandonar a si mesmo a própria sorte. É visível a necessidade de cuidarmos bem de nós mesmos para envelhecermos com qualidade. Cuidar da alimentação, cuidar do corpo e da alma, ou seja, ser responsável por cuidar de todos os aspectos da própria vida.
Porém, antes de podermos escolher como queremos envelhecer precisamos aceitar a fatalidade do envelhecimento. Negá-la ou ficar obcecada por ela são dois lados de uma mesma moeda de negligência ao próprio self.
Eliane Brum*, jornalista, escritora e documentarista, comentando sobre o filme “Branca de neve e o caçador” dirigido por Rupert Sanders, ressalta que a obra, olhando a perspectiva da rainha má, é um conto de fadas para mulheres adultas. Obcecada por não envelhecer, a vilã rouba a beleza e juventude das adolescentes, com crueldade. No filme, a justificativa passa pelas decepções amorosas, no entanto, sua vida continua tão miserável quanto antes, pois na tentativa de não sentir ela também deixa de viver e de ter um verdadeiro encontro com o outro.
Mulheres como a rainha má ficam demasiadamente enfocadas em sua própria inveja sobre o que as outras têm e esquecem de desenvolver o próprio potencial. O foco fica no outro e não em si mesmas. Dessa forma, a vida passa sem ser sentida.
Outra questão importante que fica bem escondida detrás do incômodo pelo envelhecer é o enfrentamento cara a cara com a própria finitude. Morte: fim da vida, não ter mais oportunidades para realizar os sonhos e projetos que tínhamos planejado.
Mas talvez tão ruim ou pior que a “morte morrida”, é a morte em vida. Estar vivo-morto é um jeito auto-boicotador que encontramos para não sairmos das lealdades invisíveis aos nossos padrões familiares. Lealdades podem se tornar gaiolas com portas fechadas. Mesmo num descuido do dono, se a porta fica aberta, o passarinho não aprendeu a voar e acha muito arriscada a vida lá fora, prefere voltar para dentro da gaiola**. Estar vivo-morto é não ter a coragem de SER o que gostaríamos, de viver nosso desejo, é não se permitir abandonar a gaiola, mesmo quando não mais nos identificamos com ela.
No filme “Ao entardecer” dirigido por Lajos Koltai, a protagonista Ann Lord, já doente e acamada, relembra momentos de seu passado, incomodada pelo que deixou de viver há cinquenta anos atrás. Chegar ao final da vida e se deparar com sua vida não vivida*** e lamentar por não ter aproveitado certas oportunidades, é no mínimo muito triste. Numa perspectiva mais positiva, escolher conscientemente nos faz aceitar melhor nossa vida não vivida. Escolher inconscientemente nos deixa a sensação de eterna falta e débito com o não vivido.
Para não chegarmos a tal ponto, precisamos investir no nosso processo de envelhe-SER. Este investimento requer busca de coerência entre pensamento, sentimento e ação, ou seja, agir conforme sentimos e pensamos. Esta coerência alimenta nossa auto-estima e por consequência gostamos mais de nós mesmos, fazendo assim com que envelheçamos saudavelmente.
De fato eu gosto de envelhecer porque quanto mais vivo, mais vou aprendendo com a vida. Quanto mais vivências tenho, mais vou experimentando a arte de me tornar cada vez mais coerente comigo mesma, com meus valores, com minha ética.
As rugas no nosso rosto são sinais dos sorrisos que sorrimos e também são marcas das lágrimas que choramos. São as marcas do vivido. Nosso corpo é marcado o tempo todo pelas nossas vivências. Querer impedir que elas apareçam é pedir para a vida parar. Por mais incômodo que seja ver nosso corpo envelhecendo é ainda preferível enxergar nele as marcas da vida a deixar de viver...

Adriana Freitas
** Conferir: “O passarinho engaiolado” de Rubem Alves, Paulus Editora.
*** Conferir: “Viver a vida não vivida” de Robert A. Johnson e Jerry M. Ruhl, Editora Vozes.